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Plínio Santos FilhoPh.D.
Ensaios · Candi Press

De Gutenberg ao KDP

Como um livro chegou como cinquenta e uma fotografias — e se tornou o volume um da Candi Press.

Plínio Santos Filho
Historinhas sem Verbos — Candi Press, volume um
Historinhas sem Verbos · Coleção Candi Press · volume um

A feitura de um pequeno livro carrega o argumento inteiro. Ele chegou sem arquivo e sem digitalização — cinquenta e uma fotografias de celular do manuscrito datilografado de uma autora já falecida, dispostas sobre uma toalha de mesa florida.

A autora era Marilda Vasconcelos de Oliveira, e ela havia feito algo raro: escrevera um livro inteiro de historinhas sem um único verbo. Um feito sob restrição — dá para colocá-lo ao lado da Molly sem pontuação de Joyce, ou do lipograma de Perec — e que pede à letra que recue e deixe a restrição falar. Mas, antes que nada disso pudesse importar, o livro tinha de ser recuperado de uma caixa de sapatos cheia de imagens.

A invariante que o objeto já guarda

Não se começa lendo. Começa-se corrigindo a imagem — desentortar, contraste, ampliar — antes que uma única palavra seja transcrita. Depois se lê em passagens paralelas, e a pilha se remonta não por adivinhação, mas pelo número de página impresso que cada folha já traz. O objeto lhe diz a própria ordem; basta confiar nela. Uma folha — a página 15, o começo de “A Professora” — simplesmente faltava. Voltou para casa semanas depois, quando o filho da autora a encontrou e também a fotografou.

O palpite de uma máquina jamais se sustenta como a palavra de uma autora já morta. O olho humano é quem julga.

Havia uma palavra, degradada quase para além da leitura, que uma primeira passagem transcreveu como apnumado. A máquina, querendo ser prestativa, chutou apurado. Endireitada e ampliada, a chapa mostrou ainda outra coisa: aprumado — e a própria autora o confirmou, noutro ponto do mesmo manuscrito, onde usara a palavra de modo limpo. Está a disciplina inteira numa só palavra. O olho é o último juiz.

A anatomia de uma página

Depois, o livro precisava ganhar um corpo. A5, Palatino em vez de Garamond — calor no lugar da delicadeza —, uma medianiz larga, capítulos abrindo na página da direita, versos deixados de fato em branco, fólios em estilo antigo centralizados ao pé. Viúvas e órfãs caçadas uma a uma; a linha solitária encalhada no topo de uma página, eliminada. E uma crise silenciosa: o motor de composição da gráfica não tinha hifenização brasileira nenhuma, de modo que deixado se quebrava como deix-ado. A solução foi buscar o arquivo de padrões e reconstruir o próprio formato para instalar a língua — reparo no nível da ferramenta, não da página.

A capa, de outro filho

Marilda não gostava de ver a própria fotografia em público, então a frente virou uma pintura de seu filho, o pintor Gil Vicente — óleo sobre tela, 1980 —, uma capa literária conduzida pela arte, à maneira dos livros que se veem hoje nas boas estantes, com uma lombada azul-marinho tirada diretamente da pintura e um verso verde-água. Cada bloco de texto foi ajustado a olho até assentar bem no seu espaço.

E então o novo Gutenberg: o livro foi inserido no formulário de três abas da Amazon — autora, Marilda; editor, eu mesmo; selo, Candi Press; série, Coleção Candi Press —, recebeu um ISBN gratuito e foi enviado. De uma toalha de mesa florida a um livro de bolso que qualquer um pode comprar.

É para isso que serve a editora. Restauração a partir de nada além de imagens; uma restrição carregada com fidelidade até a letra impressa; uma língua ausente instalada para que as palavras se quebrem corretamente; uma capa conduzida pela arte; e, da primeira fotografia à última página, o olho humano treinado como o juiz final — de uma palavra, e de uma página.

ዓ ሰ ሙ ፡፡ አ ሜ ን ♣
Veja o livro da Marilda → Sobre a Candi Press
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